Cooperativa oferece
dignidade a recicladores de lixo

“Antes eu era catador de lixo, agora eu sou
agente ambientalista” afirmou o diretor do Conselho
Administrativo da Caec (Cooperativa de Agentes Ecológicos de
Canabrava), em Lauro de Freitas, Lázaro Tojão da Silva, 61
anos. Assim como ele, mais 45 cooperados viram suas vidas se
transformarem depois que se associaram à Caec. A mudança não
está apenas na nomenclatura, mas em uma série de valores
adquiridos; em melhores remuneração e condições de trabalho
e, principalmente, no reconhecimento do importante papel
social que cada um deles desempenha.
Os agentes ambientalistas da cooperativa são responsáveis
pela reciclagem em cerca de 75 toneladas de lixo por mês.
São plásticos, vidros, ferros, alumínios, isopor, papelão,
entre outros materiais que antes iam para o lixo e agora se
transformam em renda para os cooperados. “É muito
gratificante ver os resultados do nosso desempenho. Antes a
cidade de Lauro de Freitas vivia tendo enchentes, pois o
lixo entupia os bueiros. Depois que iniciamos o nosso
trabalho ambientalista as enchentes acabaram”, afirmou
Lázaro.
O trabalho é desenvolvido por duas equipes, que se revezam
em atividades externas e internas. Durante três dias na
semana uma das equipes faz o serviço de coleta de lixo nas
ruas e em organizações parceiras como condomínios, empresas
etc., enquanto a outra trabalha dentro do Galpão da Caec
fazendo a separação, prensagem e venda do material coletado.
O serviço garante aos cooperados uma remuneração média de R$
600,00 ao mês, além disso, eles contribuem com um INSS
(Instituto Nacional de Segura Social), garantindo a
aposentadoria a pessoas que antes não tinham nenhuma
perspectiva.
A recicladora Maria Neuza Santos, 54 anos, lembra os dias
difíceis que viveu no lixão do Quingoma, disputando o lixo
que era despejado pelos caminhões com outros catadores. No
braço, ela mostra uma cicatriz causada por um corte em um
vidro de aquário. “Tive um corte profundo, desmaiei, quando
dei por mim, já estava no HGE”, afirmou. Além dos riscos de
acidentes, os catadores do lixão conviviam com os urubus e
com a fome, chegando a se alimentar dos restos de comida
encontrados.
Maria das Graças de Jesus, 43 anos, que também viveu
momentos difíceis no lixão do Quingoma, lembra que tinha que
disputar o lixo não apenas com os urubus, como também com os
outros catadores. “Quando os caminhões chegavam vinha um
monte de gente disputar o lixo. As pessoas acabavam
brigando, ou por um pedaço de ferro, ou por um pedaço de
alumínio e até mesmo por restos de alimentos”, afirmou. A
recicladora lembra também do sofrimento de ao ter com que se
alimentar. “Alguns dias eu tinha o que comer, outros não. No
lixão eu ganhava em torno de R$ 30,00 por semana”, afirmou.
Pai de nove filhos, Cosme de Melo, 46 anos, comemora a
segurança adquirida através do trabalho na cooperativa.
“Hoje eu tenho o meu dinheiro certo todo mês. Faça sol ou
faça chuva. Antes, às vezes eu tinha, outras não”, disse.
Curso de capacitação - Quando iniciaram a produção, todos os
cooperados passaram por um curso de capacitação, através do
qual tiveram aulas de cooperativismo, segurança do trabalho
e trabalho em equipe. E através do programa Mova Brasil, que
tem o patrocínio da Petrobras, mais de 20 agentes
ambientalistas participaram de um curso de alfabetização,
com duração de nove meses. As aulas eram ministradas dentro
da cooperativa, antes ou após o expediente.
A Caec conta com dois caminhões, três máquinas de prensa, um
elevador de cargas, um carro de fardo, mais de trinta carros
coletores e equipamentos para cozinha industrial, cujo
objetivo é construir uma cozinha coletiva para que os
cooperados façam suas refeições. Já os recicladores contam
com fardas, botas, luvas, protetor auricular, boné, entre
outros equipamentos que garantem a prevenção de acidentes.
“Hoje nós temos identidade e uma entidade que nos
representa, temos acesso às instituições que não tínhamos
antes, pois somos representados pela Caec”, argumentou
Lázaro Tojão. Os cooperados contam ainda com serviço de
assistência social, jurídica e médica.
Pangea - O material coletado é vendido para grandes
indústrias de reciclagem. De acordo com Adriana Neves
Mesquita, do Centro de Estudos Socioambientais Pangea, que
presta assistência à cooperativa, as empresa e condomínios
que desejam se tornar parceiros da Caec devem entrar em
contato através do telefone 3287-3198 e solicitar uma
visita. Em seguida, a Caec avalia como será feita a coleta
do material e realiza um trabalho de conscientização dos
funcionários ou condónimos através de palestras,
distribuição de panfletos etc. No caso de empresas, quando
necessário, a organização emite um relatório informando a
quantidade de material coletado.
Adriana afirma ainda que o objetivo da Pangea é capacitar os
cooperados para se auto-gerenciar. “Hoje, entre os
cooperados, nós temos dois conselheiros ficais, dois
administrativos e dois de ética. Nosso objetivo é
capacitá-lo para que eles possam se autogestar”, explicou.
Apesar de terem uma importante contribuição para com a
preservação ambiental e o desenvolvimento sustentável, os
cooperados lamentam que algumas pessoas ainda vejam os seus
trabalhos com discriminação e preconceito. “Ás vezes a gente
passa pela rua e as pessoas nos chamam de lixeiros”,
reclamou Maria Neuza.
Porém, a maior dificuldade enfrentada pela cooperativa hoje
é a falta de espaço, pois o galpão aonde funciona, no Cají,
já não comporta mais os equipamentos da instituição, nem
permite a adesão de novos cooperados. Segundo Adriana, hoje
mais de 200 catadores estão na lista de espera para se
associarem à cooperativa.
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