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Atualizado 23/02/2008
 
 
 
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Cooperativa oferece dignidade a recicladores de lixo
 

“Antes eu era catador de lixo, agora eu sou agente ambientalista” afirmou o diretor do Conselho Administrativo da Caec (Cooperativa de Agentes Ecológicos de Canabrava), em Lauro de Freitas, Lázaro Tojão da Silva, 61 anos. Assim como ele, mais 45 cooperados viram suas vidas se transformarem depois que se associaram à Caec. A mudança não está apenas na nomenclatura, mas em uma série de valores adquiridos; em melhores remuneração e condições de trabalho e, principalmente, no reconhecimento do importante papel social que cada um deles desempenha.
Os agentes ambientalistas da cooperativa são responsáveis pela reciclagem em cerca de 75 toneladas de lixo por mês. São plásticos, vidros, ferros, alumínios, isopor, papelão, entre outros materiais que antes iam para o lixo e agora se transformam em renda para os cooperados. “É muito gratificante ver os resultados do nosso desempenho. Antes a cidade de Lauro de Freitas vivia tendo enchentes, pois o lixo entupia os bueiros. Depois que iniciamos o nosso trabalho ambientalista as enchentes acabaram”, afirmou Lázaro.
O trabalho é desenvolvido por duas equipes, que se revezam em atividades externas e internas. Durante três dias na semana uma das equipes faz o serviço de coleta de lixo nas ruas e em organizações parceiras como condomínios, empresas etc., enquanto a outra trabalha dentro do Galpão da Caec fazendo a separação, prensagem e venda do material coletado. O serviço garante aos cooperados uma remuneração média de R$ 600,00 ao mês, além disso, eles contribuem com um INSS (Instituto Nacional de Segura Social), garantindo a aposentadoria a pessoas que antes não tinham nenhuma perspectiva.
A recicladora Maria Neuza Santos, 54 anos, lembra os dias difíceis que viveu no lixão do Quingoma, disputando o lixo que era despejado pelos caminhões com outros catadores. No braço, ela mostra uma cicatriz causada por um corte em um vidro de aquário. “Tive um corte profundo, desmaiei, quando dei por mim, já estava no HGE”, afirmou. Além dos riscos de acidentes, os catadores do lixão conviviam com os urubus e com a fome, chegando a se alimentar dos restos de comida encontrados.
Maria das Graças de Jesus, 43 anos, que também viveu momentos difíceis no lixão do Quingoma, lembra que tinha que disputar o lixo não apenas com os urubus, como também com os outros catadores. “Quando os caminhões chegavam vinha um monte de gente disputar o lixo. As pessoas acabavam brigando, ou por um pedaço de ferro, ou por um pedaço de alumínio e até mesmo por restos de alimentos”, afirmou. A recicladora lembra também do sofrimento de ao ter com que se alimentar. “Alguns dias eu tinha o que comer, outros não. No lixão eu ganhava em torno de R$ 30,00 por semana”, afirmou.
Pai de nove filhos, Cosme de Melo, 46 anos, comemora a segurança adquirida através do trabalho na cooperativa. “Hoje eu tenho o meu dinheiro certo todo mês. Faça sol ou faça chuva. Antes, às vezes eu tinha, outras não”, disse.
Curso de capacitação - Quando iniciaram a produção, todos os cooperados passaram por um curso de capacitação, através do qual tiveram aulas de cooperativismo, segurança do trabalho e trabalho em equipe. E através do programa Mova Brasil, que tem o patrocínio da Petrobras, mais de 20 agentes ambientalistas participaram de um curso de alfabetização, com duração de nove meses. As aulas eram ministradas dentro da cooperativa, antes ou após o expediente.
A Caec conta com dois caminhões, três máquinas de prensa, um elevador de cargas, um carro de fardo, mais de trinta carros coletores e equipamentos para cozinha industrial, cujo objetivo é construir uma cozinha coletiva para que os cooperados façam suas refeições. Já os recicladores contam com fardas, botas, luvas, protetor auricular, boné, entre outros equipamentos que garantem a prevenção de acidentes. “Hoje nós temos identidade e uma entidade que nos representa, temos acesso às instituições que não tínhamos antes, pois somos representados pela Caec”, argumentou Lázaro Tojão. Os cooperados contam ainda com serviço de assistência social, jurídica e médica.
Pangea - O material coletado é vendido para grandes indústrias de reciclagem. De acordo com Adriana Neves Mesquita, do Centro de Estudos Socioambientais Pangea, que presta assistência à cooperativa, as empresa e condomínios que desejam se tornar parceiros da Caec devem entrar em contato através do telefone 3287-3198 e solicitar uma visita. Em seguida, a Caec avalia como será feita a coleta do material e realiza um trabalho de conscientização dos funcionários ou condónimos através de palestras, distribuição de panfletos etc. No caso de empresas, quando necessário, a organização emite um relatório informando a quantidade de material coletado.
Adriana afirma ainda que o objetivo da Pangea é capacitar os cooperados para se auto-gerenciar. “Hoje, entre os cooperados, nós temos dois conselheiros ficais, dois administrativos e dois de ética. Nosso objetivo é capacitá-lo para que eles possam se autogestar”, explicou.
Apesar de terem uma importante contribuição para com a preservação ambiental e o desenvolvimento sustentável, os cooperados lamentam que algumas pessoas ainda vejam os seus trabalhos com discriminação e preconceito. “Ás vezes a gente passa pela rua e as pessoas nos chamam de lixeiros”, reclamou Maria Neuza.
Porém, a maior dificuldade enfrentada pela cooperativa hoje é a falta de espaço, pois o galpão aonde funciona, no Cají, já não comporta mais os equipamentos da instituição, nem permite a adesão de novos cooperados. Segundo Adriana, hoje mais de 200 catadores estão na lista de espera para se associarem à cooperativa.


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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