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Atualizado 23/02/2008
 
 
 
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São João: uma tradição desvirtuada

 (Por João Nery) - Uma das lembranças boas de minha infância é das fogueiras de São João, ocorridas na véspera do dia dedicado ao santo e, oito dias depois, as fogueiras das viúvas, em homenagem a São Pedro. Era uma época alegre em que as famílias se encontravam nas portas de suas casas, onde em sua maioria havia uma fogueira acesa. Os fogos, as bandeirolas, as quadrilhas e os bailes ao som da sanfona, do triângulo e da zabumba faziam a alegria de adultos e crianças que curtiam a festa cada qual a seu modo.
Os biscoitos e os bolos em fartura eram acompanhados de quentão e de batatas que eram assadas nas brasas, fazendo o complemento da festa em que o espírito religioso ainda imperava. Muitos saltavam a fogueira e repetiam: “São João dormiu/ São Pedro acordou/ Vamos ser compadres/ Que São João mandou”. E firmavam assim um compadrio, cujos laços permaneciam unidos enquanto vivessem os personagens. Também havia os afilhados de fogueira. Num ritual parecido, as pessoas diziam por três vezes: “São João disse/ São Pedro confirmou/ Eu sou seu padrinho/ Que São João mandou”.
A gerações mais novas pouco ou nada sabem desses rituais e isso se deve grandemente ao desvirtuamento dessa tradição trazida ao Brasil pelos portugueses e que em 1583 já era comemorada pelos índios e se manteve a forma original até cerca de 30 anos atrás. De algum tempo pra cá, a exemplo do Carnaval que era uma festa popular, passou a ser tratado como uma festa de massa; o São João foi ganhando contornos cada vez mais desvirtuados e hoje nem de longe lembra o que era.
A festa tal qual acontece hoje passou a representar mais uma disputa entre cidades para ver qual delas reúne o maior número de atrações, muitas das quais escolhidas sem critérios. Nao é dificil ver gêneros musicais totalmente avesso ao Sao João sendo propalados como principais atrações das festas juninas. Bandas de arrocha são contratadas por prefeitos que parecem nao ter nem noção de suas ações equivocadas. Fortunas são gastas por esses gestores na tentativa de agradar um público cada vez menos exigente.
Cidades que têm um porte maior e consequentemente melhor estrutura de hospedagem podem levar grandes atrações, pois o que o comércio arrecada com os visitantes, compensa a despesa, mas municípios pobres, sem quaisquer fatores condicionantes, aventam em fazer festas gigantescas às custas do erario. Além disso, como esses municipios nao têm estrutura, o pesoal que vem de fora fica hospedado nas cidades polos, onde gastam seu dinheiro nos hotéis e bares melhores estabelecidos.
Se parte do dinheiro gasto com bandas de grande vulto fosse aplicado em melhoria para a população, teríamos cidades e distritos melhores e certamente haveria São João, São Pedro e Santo Antônio melhores, pois as pessoas que gostam destas tradições passariam a trabalhar na organização das festas e certamente o bom gosto das pessoas nao permitiria o desvirtuamento proposto por gestores despreparados.
Nada contras as bandas de axé, arrocha, "créu" e outros gêneros que eu recuso chamar de música. Elas têm o seu espaço e lugar definidos nas micaretas e nos carnavais, então não faz sentido no São João ao invés de ouvir bandas de forró e forrozeiros como Targino Godinho, Adelmário Coelho, Flávio José, Trio Nordestino, dentre outros bons, ter que ouvir certos cantores e bandas que é melhor nao citar para nao ofender o ouvido.
É triste ver a festa junina hoje desvirtuada, mas ainda há uma esperança de que um dia possamos reunir nossas famílias ao redor da fogueira para ouvir as legítimas músicas de São João, comer as típicas comidas da época e poder dançar um forrozinho à moda antiga, como manda a tradição nordestina. Que o espírito do velho Lua ilumine as cabeças pensantes, para que não deixe morrer o que ainda resta desta tradição, cujo apetite desenfreado do capital e a busca de dividendos por parte de alguns gestores, tem feito desaparecer. .


Mirangaba viveu um São João magnífico

 Em Mirangaba não podia ser diferente, a festa na cidade teve duração de quatro dias. Nesse período, a cidade toda se trans-formou num grande e animado arraial, recheado de bandeirolas coloridas em homenagem a São João.
 
 
 
 
 
 
 
 

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