São João: uma tradição
desvirtuada
(Por João Nery) - Uma das lembranças
boas de minha infância é das fogueiras de São João,
ocorridas na véspera do dia dedicado ao santo e, oito dias
depois, as fogueiras das viúvas, em homenagem a São Pedro.
Era uma época alegre em que as famílias se encontravam nas
portas de suas casas, onde em sua maioria havia uma fogueira
acesa. Os fogos, as bandeirolas, as quadrilhas e os bailes
ao som da sanfona, do triângulo e da zabumba faziam a
alegria de adultos e crianças que curtiam a festa cada qual
a seu modo.
Os biscoitos e os bolos em fartura eram acompanhados de
quentão e de batatas que eram assadas nas brasas, fazendo o
complemento da festa em que o espírito religioso ainda
imperava. Muitos saltavam a fogueira e repetiam: “São João
dormiu/ São Pedro acordou/ Vamos ser compadres/ Que São João
mandou”. E firmavam assim um compadrio, cujos laços
permaneciam unidos enquanto vivessem os personagens. Também
havia os afilhados de fogueira. Num ritual parecido, as
pessoas diziam por três vezes: “São João disse/ São Pedro
confirmou/ Eu sou seu padrinho/ Que São João mandou”.
A gerações mais novas pouco ou nada sabem desses rituais e
isso se deve grandemente ao desvirtuamento dessa tradição
trazida ao Brasil pelos portugueses e que em 1583 já era
comemorada pelos índios e se manteve a forma original até
cerca de 30 anos atrás. De algum tempo pra cá, a exemplo do
Carnaval que era uma festa popular, passou a ser tratado
como uma festa de massa; o São João foi ganhando contornos
cada vez mais desvirtuados e hoje nem de longe lembra o que
era.
A festa tal qual acontece hoje passou a representar mais uma
disputa entre cidades para ver qual delas reúne o maior
número de atrações, muitas das quais escolhidas sem
critérios. Nao é dificil ver gêneros musicais totalmente
avesso ao Sao João sendo propalados como principais atrações
das festas juninas. Bandas de arrocha são contratadas por
prefeitos que parecem nao ter nem noção de suas ações
equivocadas. Fortunas são gastas por esses gestores na
tentativa de agradar um público cada vez menos exigente.
Cidades que têm um porte maior e consequentemente melhor
estrutura de hospedagem podem levar grandes atrações, pois o
que o comércio arrecada com os visitantes, compensa a
despesa, mas municípios pobres, sem quaisquer fatores
condicionantes, aventam em fazer festas gigantescas às
custas do erario. Além disso, como esses municipios nao têm
estrutura, o pesoal que vem de fora fica hospedado nas
cidades polos, onde gastam seu dinheiro nos hotéis e bares
melhores estabelecidos.
Se parte do dinheiro gasto com bandas de grande vulto fosse
aplicado em melhoria para a população, teríamos cidades e
distritos melhores e certamente haveria São João, São Pedro
e Santo Antônio melhores, pois as pessoas que gostam destas
tradições passariam a trabalhar na organização das festas e
certamente o bom gosto das pessoas nao permitiria o
desvirtuamento proposto por gestores despreparados.
Nada contras as bandas de axé, arrocha, "créu" e outros
gêneros que eu recuso chamar de música. Elas têm o seu
espaço e lugar definidos nas micaretas e nos carnavais,
então não faz sentido no São João ao invés de ouvir bandas
de forró e forrozeiros como Targino Godinho, Adelmário
Coelho, Flávio José, Trio Nordestino, dentre outros bons,
ter que ouvir certos cantores e bandas que é melhor nao
citar para nao ofender o ouvido.
É triste ver a festa junina hoje desvirtuada, mas ainda há
uma esperança de que um dia possamos reunir nossas famílias
ao redor da fogueira para ouvir as legítimas músicas de São
João, comer as típicas comidas da época e poder dançar um
forrozinho à moda antiga, como manda a tradição nordestina.
Que o espírito do velho Lua ilumine as cabeças pensantes,
para que não deixe morrer o que ainda resta desta tradição,
cujo apetite desenfreado do capital e a busca de dividendos
por parte de alguns gestores, tem feito desaparecer. .
.gif) |