Acampamento de sem-teto
vive momento de apreensão

Ocupantes do acampamento da Vitória, mais
conhecido como Invasão do Japonês, em Lauro de Freitas, têm
vivido dias de apreensão. O motivo para isso é a
determinação de remoção de algumas famílias do local, para
dar início às obras do PAC (Programa de Aceleração do
Crescimento) - Lagoa da Base.
A remoção das famílias para um outro acampamento deveria ter
acontecido no período de 22 a 26 de maio, contudo não foi
realizada porque alguns ocupantes, temendo não ter para onde
ir, se recusaram a sair do local. Estes alegam que
representantes dos Movimento dos Sem-teto da Bahia (MSTB) e
Movimento dos Sem-teto de Lauro de Freitas (MSTLF),
apresentaram um papel, dizendo ser a ordem de remoção, mas
não informam para onde eles iriam. “Querem tirar a gente
daqui e nos deixar sem ter para onde ir. E ainda nos
ameaçam, dizendo que vão chamar a Polícia de Choque”,
afirmou a dona-de-casa Ednalva dos Santos. “Eles querem nos
mandar para um terreno que não sabemos onde fica. Estamos na
Invasão do Japonês há um ano, gastamos tudo que tínhamos
para construir nossos barracos, muitos passaram até fome
para isso. Agora temos que deixar nossas moradias. E as
nossas coisas, vão ficar onde? E os nossos filhos que estão
matriculados em escolas da região, vão estudar onde?”,
lamentou a dona-de-casa Ana Cláudia de Jesus Melo.
Segundo Juarez Monteiro, coordenador estadual do MSTB, no
dia da remoção o grupo contrário às obras, que tem como
líder Paulo César Oliveira dos Santos, impediu a saída dos
moradores, ameaçou colocar bancadas na entrada do
acampamento e disse que não permitiria mais a entrada dos
ocupantes que saíssem do local. “As pessoas estão em cárcere
privado, quem está dentro não sai e quem está fora não
entra. Para sair, os ocupantes precisam dizer aos opositores
do projeto para onde vão. Até mesmo falar ao telefone está
difícil lá dentro”, afirmou Monteiro.
A coordenadora municipal do MSTLF, Leda Lopes, diz que o
grupo está agindo por interesses próprios. “Essas pessoas
que se levantaram contra o projeto estão insatisfeitas por
não terem sido contempladas. Contudo, o programa estabelece
critérios para beneficiar as famílias com base no cadastro
social”, afirmou. Leda falou ainda que o grupo vem tentando
influenciar a opinião dos ocu-pantes, usando como argumento
que não existe nenhuma garantia de reassentamento. “Não
tivemos como apresentar o termo de garantia, pois fomos
impedidos de entrar no local”, disse.
Membro da Associação dos Moradores de Vila Mar, Paulo César
diz que a população se recusou a deixar o local por não ter
nenhuma garantia de que será reassentada. “Os representantes
do MSTB e MSTLF vêm induzindo a população com mentiras
infundadas. Não temos como acreditar nesses grupos”,
afirmou.
Atualmente, cerca de 200 famílias estão acampadas no local.
Os coordenadores do MSTB e MSTLF não souberam precisar o
número exato de famílias que seriam removidas, porém
apresentaram um termo assinado por eles e por responsáveis
pelas obras, garantindo o reassentamento de 55 famílias em
novas unidades construídas através do PAC - Lagoa da Base, e
disseram que mais dez unidades serão entregues através de um
outro programa.
Os opositores à remoção alegam que não tiveram nenhuma
informação oficial em relação ao projeto que será realizado
na região. “Nós não podemos acreditar em terceiros. O povo
quer ouvir da prefeita qual o projeto que ela tem para a
área”, disse Ana Cláudia.
O secretário de Governo, Ápio Vinagre, disse que
frequentemente são realizadas reuniões entre a comunidade do
Japonês e a prefeitura a fim de esclarecer quais serão as
intervenções públicas na região, contudo alguns habitantes
do local se recusam a comparecer. Vinagre se comprometeu em
agendar para a próxima semana, uma reunião entre
representantes do movimento contrário a remoção das
famílias, coordenadores do MSTB e MSTLF e dirigentes
públicos, a fim de solucionar o conflito.
As obras do PAC - Lagoa da Base foram anunciadas pela
prefeita Moema Gramacho, no último dia 9 , durante a visita
do presidente Lula a Lauro de Freitas. O PAC - Lagoa da Base
irá destinar R$ 18 milhões para a construção de três
conjuntos habitacionais, melhoria de 300 moradias, obras de
infra-estrutura e macrodrenagem de canais e serviços de
recuperação das dunas do Japonês e Lagoa da Base,
beneficiando, assim, moradores da Vila Praiana, Japonês e
São José.
Invasão do Japonês
O que era um areal, passaria a ser um condomínio
residencial, de propriedade de um japonês, se não tivesse
sido ocupado por sem-teto, em meio ao abandono do local. A
ocupação ocorreu há cerca de um ano. Durante esse período,
tramitou um processo na Justiça de reintegração de posse ao
antigo proprietário, contudo a sentença foi dada a favor dos
ocupantes. Os líderes do MTSB e MSTLF afirmaram que durante
esse período eles vêm intervindo, junto à prefeitura e os
governos estadual e federal, para possibilitar aos ocupantes
melhores condições de moradia e infra-estrutura. De acordo
com o cadastro social, realizado em julho de 2007, o local
possuía 181 famílias. Hoje, estima-se que esse número seja
de 200.
MSTB e MSTLF
De acordo com Juarez Moreira, os movimentos têm como
objetivos ocupar áreas, públicas ou privadas, que não
possuam finalidades sociais; firmar parcerias com as
prefeituras e com os governos estadual e federal, a fim de
beneficiar os sem-teto; e enviar projetos de moradia popular
ao Ministério das Cidades.
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