São Francisco do Conde x
Miguel Calmon:
a diferença que faz a administração pública

Com 70 anos de emancipação, São Francisco do
Conde é a cidade brasileira com maior PIB (Produto Interno
Bruto) per capita, R$ 283 mil, segundo o IBGE (Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística), isto porque sua
receita maior advem dos royalties da Petróbras pela produção
e refino do petrólio.Porém quem pensa que a população do
município goza de toda essa riqueza se engana. Apesar de ter
o 16º maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Bahia,
São Francisco do Conde é uma cidade onde impera a pobreza.
Tudo em São Francisco do Conde parece um paradoxo com o
título de município mais rico do país. As condições de
moradia são precárias, poucas casas possuem mais do que três
metros de largura, no cenário da cidade é comum ver casas
sem reboco, de taipa, palafitas e casebres de madeira. Falta
infra-estrutura, saneamento básico e lazer. “Aqui nós mal
temos prefeito, a prefeitura está entregue às baratas, chega
gente de fora que só vem passar o cartão magnético para
retirar o dinheiro”, reclamou um pescador que não quis se
identificar. A agência do Banco do Brasil, onde deveria ser
movimentada toda riqueza, parece não comportar mais do que
dez pessoas. São Francisco do Conde não tem shopping center,
hotéis, condomínios, residências dignas, ou qualquer outra
coisa que lembre uma cidade rica. Nela restam apenas as
praças onde os mais ricos do país podem passar o tempo e
esquecer a fome e a falta de emprego.
Descaso
Quem mora em São Francisco do Conde lamenta que apesar das
contradições entre a PIB e a realidade da população nenhuma
providência seja tomada. “O prefeito daqui tem mais de cem
processos por corrupção e lavagem de dinheiro, todas as
autoridades têm conhecimento do que se passa aqui, mas
ninguém toma providência”, reclamou a líder comunitária
Sônia Mangabeira.
O título de cidade mais rica do Brasil, ao invés de orgulho,
tornou-se motivo de vergonha, piada e irritação entre os
moradores. “Veja que contradição. A cidade tem muito
dinheiro e o povo é pobre”, lamentou o apo-sentado José
Marcelino Nogueira. “Em Salvador somos taxados como
ladrões”, afirmou Sônia.
Corrupção
Caminhar por São Francisco do Conde provoca a sensação de
viajar para uma terra sem lei ou voltar aos tempos
longínquos em que tudo poderia acontecer. As denúncias de
corrupção e irregularidades na administração pública são
freqüentes e vem de fontes como Tribunal de Contas dos
Municípios e Controladoria Geral da União (CGU).
Quando o assunto é eleição, surge um fato curioso: no último
censo realizado pelo IBGE, em 2001, o número de habitantes
com idade acima de 15 anos era inferior a 18 mil, mas nas
eleições de 2004 o município teve 22.762 votos, ou seja, de
2001 a 2004 o número de possíveis eleitores aumentou mais de
4 mil, aumento esse semelhante ao crescimento populacional
entre 2001 e 2006.
Estatística
A pobreza no município mais rico do país é escancarada.
Segundo o IBGE, mais da metade da população com idade acima
de 20 anos não possui rendimento. Quanto a outra parte,
privilegiada, 17,5% sobrevivem com até um salário mínimo;
15,5% ganham mais de um e menos de dois salários; 5,5 têm
renda entre dois e três salários; 7,5% ganham mais do que
três e menos do que 20, e 0,25% (apenas 52 pessoas) ganham
mais do que 20 salários mínimos.
Forma de sobrevivência
Para sobreviver, a metade da população sem renda recorre à
natureza, as frutas que colhem das árvores e os frutos do
mar são a salvação de muita gente. “Pessoas que têm
condições recebem Bolsa Família e Bolsa Escola, nós não
recebemos nada. O povo agradece a Deus porque tem esse mar
que não nos permite passar fome”, lamentou uma marisqueira,
que não quis se identificar.
Educação
A cidade dos mais ricos também é uma das que possuem menos
instruídos. Em São Francisco do Conde, apenas 0,23% da
população possuem mais de 15 anos de estudos, enquanto 76,9%
dos moradores acima de 10 anos estudaram no máximo até a
quinta série do ensino fundamental.
De acordo com representantes da Associação dos Trabalhadores
em Educação do Estado da Bahia (APLB-Sindicato), em 1996 a
cidade foi oitava colocada no ranking nacional de educação.
“A má administração dos bens públicos, a começar pelo
pagamento dos professores e das perdas salariais acima de
75%, é a principal causa da mudança desse panorama”, disse
Dielson dos Santos, coordenador da APLB. Também de acordo
com a APLB, o professor contratado para ensinar no nível I
recebe apenas um salário mínimo. “As leis municipais não são
respeitadas, por isso estamos movendo ações judiciais, tais
como denúncias ao Ministério Publico”, afirmou Santos.
A reportagem do Primeira Página tentou reiteiradas vezes
entra em contato com o prefeito através do telefone
3651-8969 sem sucesso.

Miguel Calmon
Emancipada em 1924, Miguel Calmon possui um PIB per capita
equivalente a 0,6% do PIB de São Francisco do Conde. São R$
1.706,20, de acordo com dados do IBGE, que permitem a
população gozar de melhor qualidade de vida e
infra-estrutura.
O município tem 30.600 habitantes, e fica situada na região
do Piemonte da Chapada. Com dois distritos e 58 povoados,
com água e energia elétrica. A economia dos povoados
baseia-se na agropecuária e agricultura, com algumas
pequenas indústrias agrícolas como, casa de farinha.
A prefeitura além do investimento na preparação da mandioca,
abraçou o projeto flores, elaborado pelo estado, atraiu
outros empresários do ramo para a cidade e montou um
programa que emprega doze famílias da comunidade do Bagre e
é administrado e gerenciado por membros da comunidade.
O segredo da Administração
Em entrevista ao jornal Primeira Página, o prefeito de
Miguel Calmon, Humberto Miranda explica de que forma é
administrada a cidade e como funciona a relação com os
moradores do município. “Para mudar a cidade, tem que
preparar a cabeça do cidadão, se ele não estiver preparado
para as mudanças, o gestor não vai conseguir trazer o
desenvolvimento. O que mudou a consciência das pessoas da
zona rural foi mostrar que uma pessoa sozinha não era capaz
de transformar um local, teria que haver união para defender
os direitos e cobrar a solução dos problemas do lugar”,
disse Miranda. O prefeito afirmou também que as associações
foram frutos de uma semente plantada há doze anos, e que
tem, a cada ano, sua funcionalidade reforçada. “Toda última
segunda-feira do mês as associações participam da reunião do
Conselho Municipal das Associações Rurais de Miguel Calmon,
onde acontece o OP (Orçamento Participativo), que discute
questões ligadas à saúde, educação, estradas, geração de
emprego e renda etc”, salientou. Todos os representantes das
58 comunidades participam do OP, trazendo os problemas da
zona rural, questionando os erros, como se fossem um
prefeito dentro da comunidade, pois o prefeito da cidade não
tem como estar nesses 58 povoados e dois distritos se não
tiver seus representantes”, ressaltou. O representante sente
de perto o problema, por isso é um importante mediador entre
o problema e a solução. “Assim facilita a administração e
possibilita a reivindicação social”, concluiu.
Economia
A economia da sede é baseada na agroindústria e pequenos
negócios. A prefeitura de Miguel Calmon adotou uma política
de não adquirir nenhum produto fora da cidade, com o
objetivo de estimular o comércio local e exige dos
comerciantes preço, qualidade e agilidade na entrega. Os
comerciantes participam do OP, através da CDL (câmara dos
Dirigentes Lojistas) e a cidade adotou o pregão eletrônico
para licitações dos recursos federais.
O Banco Mundial visitou Miguel Calmon três vezes, para
observar a maneira de associativismo que a cidade implantou
na zona rural. Foram observados itens como a distribuição e
gestão da água. “É a comunidade que toma conta, é quem
cobra, quem liga e quem corta”, disse Humberto. “A
vice-presidente do banco saiu de Washington nos Estados
Unidos para visitar as nossas comunidades. O Banco Mundial
achou que isso era o sonho que ele queria para os países em
desenvolvimento e convidaram três presidentes de associações
- Aeldo Durães, João Batista Almeida e Adelmo Marcelino -
para participarem em Brasília de uma teleconferência
mundial.
Gerenciar a comunidade
A administração está descentralizada, a prefeitura gerencia
o macro, e os projetos menores fica por conta da comunidade,
que tem representantes eleitos pelos moradores. “A
prefeitura não indica ninguém, cada associação elege seu
presidente e sua diretoria, e essas pessoas ficam
responsáveis pelo gerenciamento da comunidade”, garante
Miranda.
Educação
A educação é baseada no conceito de que não se deve quebrar
a cultura do jovem da zona rural para não haver choque
cultural e gerar desestabilidade familiar. Com investimentos
de R$ 250 mil, a prefeitura construiu, com recursos
próprios, o Colégio Ronan Oliveira Mota, na comunidade de
Brejo Grande, com capacidade para 400 alunos, Colégio da
Região da Serra, que suporta até 500 estudantes e Colégio da
Região do Salgado Grande, também para 500 alunos, para
atender a comunidade da zona rural.
Existe ainda um projeto de guarda mirim, com alunos de
escolas públicas, da 1ª a 4ª série e idade entre dez a doze
anos. Através deste projeto, são escolhidos os dez melhores
alunos, que fardados vão contar a história da cidade e dar
informações sobre localizações, recebendo para isso meio
salário mínimo por mês.
Incentivo na Educação
Miguel Calmon também premia os melhores alunos da cidade,
onde os colégios particulares também participam. A
iniciativa partiu da empresa particular, A Casa do Pão, que
presenteou as escolas de melhor aproveitamento em notas e de
menor evasão escolar. No nível médio o incentivo é através
de um projeto que presenteia os melhores alunos com um
estágio na prefeitura, com remuneração também de meio
salário mínimo. Além de ser escolhido o melhor aluno do ano,
a prefeitura banca toda a faculdade dele. Sete alunos já
foram selecionados, dois já se formaram.
Curso superior
A prefeitura firmou um convênio com a universidade do
município - Unopar (Universidade do Norte do Paraná),
instituição privada que oferece cursos à distância; através
dele a Unopar destina uma parte do valor das mensalidades
para o pagamento de salário dos funcionários do Centro de
Computação e da Biblioteca, colocados à disposição dos
alunos pela prefeitura.
Os universitários de Miguel Calmon que estudam na Uneb
(Universidade Estadual da Bahia), em Jacobina, recebem ajuda
de custo para o transporte, enquanto os que estudam em
Salvador, Juazeiro, Senhor do Bomfim e Alagoinhas recebem
auxílio moradia.
Câmara Municipal / Educação
A Câmara Municipal é formada por nove vereadores, dos quais,
seis são ligados ao grupo de Humberto Miranda. Mais de 99%
dos projetos são aprovados, inclusive com os votos da
oposição.
Foi votado o Plano de Cargos e Salários do município, que
levou três meses para ser construído junto com sindicato e
professores. “Chegamos a um plano, onde os professores vão
ganhar um percentual a mais por tempo de serviço e taxa de
deslocamento para quem mora na sede e trabalha na zona rural
para professores de todos os níveis. O professor de nível I
receberá R$ 1.200,00 depois das vantagens aprovadas pelo
Plano de Cargos e Salários”, disse Miranda. O salário base
do professor é de R$ 419,00.
Preocupação com Municípios
Nos 58 povoados do município a preocupação maior está na
urbanização, a questão de água e energia para fixar o homem
no campo, além de escolas e estradas para que as pessoas
possam entrar e sair de suas comunidades. “Dezenas de
povoados já têm ruas calçadas e praças, para melhorar também
a questão do visual. O índice de eletrificação rural e
abastecimento de água já está em mais de 95% das casas.
Acabamos com as casas de taipas, pode ter uma ou outra
perdida na zona rural, porém através dos mutirões das
associações, a prefeitura dá todo material e as pessoas vão
ajudar fazer a casa. Além disso, construímos mais de 500
casas populares, sendo algumas com recursos próprios e
outras do Governo Federal.”, disse Miranda.
Dificuldade na cidade
De acordo com o prefeito, a rede de esgoto é o problema
estrutural mais grave da cidade. Isso porque, 90% dos
dejetos são despejados dentro de um rio e uma lagoa às
margens do município. Porém uma obra de R$ 24 milhões, em
parceria com o Governo Federal, irá desviar todo o esgoto da
lagoa para uma central de tratamento e, em seguida,
utilizará o esgoto tratado na agricultura. “A primeira etapa
já foi concluída, mas a obra está parada por falta de
recursos oriundos do Governo Federal, que não inclui Miguel
Calmon no PAC”, lamentou Miranda.
Obras a serem construídas
Apesar de não receber grandes obras, a relação da prefeitura
com o Governo do Estado é considerada boa por Miranda, que
disse ser sempre muito bem recebido em todas as Secretarias
que visita. O Governo do Estado irá construir em Miguel
Calmon uma quadra de poliesportiva e piscinas olímpicas. A
obra começa ainda este mês.
Concurso
Também este mês, o município irá realizar concurso e
processo seletivo para os postos de saúde e outros programas
do Governo Federal. Segundo Miranda, todo dia 20 acontece o
pagamento dos salários do próprio mês e já foi pago 40% do
13º de 2008, para não deixar todas as obrigações do
município para o final do ano.
Planejamento
Além das preocupações com o presente, Miguel Calmon também
vem se planejando para o futuro. A cidade elaborou o Plano
Diretor Participativo Urbano e Rural para os próximos vinte
anos, construído por profissionais da cidade, pedagogos,
engenheiros, assis-tentes sociais e administrativos, através
de audiências públicas nas comunidades para saber como as
pessoas querem o desenvolvimento daquele lugar, quais são as
potencialidades e os obstáculos para o desenvolvimento. O
Plano já está pronto para ser levado à Câmara, transformado
em lei e seguido pelos próximos gestores.
Segredo do desenvolvimeto
O prefeito acredita que o segredo do desenvolvimento de
Miguel Calmon é a participação popular e o trabalho em
conjunto da prefeitura com a população. Os investimentos na
Educação e a atenção à deficientes físicos e mentais é
prioridade no município em que 100% das escolas públicas têm
a matéria de Educação Ambiental e inclusão social;
professores qualificados para ensinar deficientes auditivos
através da Linguagem Brasileira de Sinais (Libras); missas e
cultos com tradutores de Libras; brinquedoteca para crianças
com deficiência física e visual, e psicólogo, terapêutica
ocupacional e enfermeiro preparados para acompanhar as
pessoas com problemas mentais em seus tratamentos. Além
disso, Miguel Calmon possui a Casa de Apoio à Criança, onde
crianças abandonadas são acolhidas e participam de aulas
pelas manhã e recreação pelo resto do dia, retirando-as das
ruas.
Dados da Arrecadação de Miguel Calmon e São F. do Conde
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