Entrevista com Lázaro Ramos

Duas Caras está há três semanas no
ar. Acha pouco? Pois esse tempo foi mais do que suficiente
para que seus personagens repercutissem entre o público.
Evilásio, por exemplo, já andou tirando o fôlego das fãs de
Lázaro Ramos, conforme ele conta na entrevista abaixo. O
ator fala ainda sobre sua relação com as favelas na vida
real, discorre sobre soluções para o preconceito como o que
cerca seu personagem e afirma categoricamente que, num
relacionamento, as diferenças mais ajudam do que atrapalham.
Com que profundidade você conhecia a realidade das favelas e
das pessoas que vivem em uma antes de interpretar o Evilásio
Caó?
Os primeiros contatos que tive foram através de projetos
culturais sociais, que têm no Vidigal, que são o Nós do
Morro e o Nós no Cinema e, na Cidade de Deus, a CUFA
(Central Única de Favelas). Quando cheguei ao Rio de
Janeiro, acabei convivendo com muita gente que mora em
favela e, vez por outra, ia à casa de alguém. Mas
conhecimento mais profundo mesmo foi com a CUFA, quando ia
visitar o projeto do MV Bill e do Celso Athaíde. E, também,
a equipe do programa que dirijo num canal a cabo é toda de
formandos da classe audiovisual da CUFA.
Até que ponto essa convivência lhe ajudou a compor o
personagem?
O “fator favela” não é o determinante para compor o
personagem. O que mais ajuda a compor é uma juventude que
conheço, que tem o pensamento formado, é a turma do hip-hop,
que tem atitude e o pensamento político formado, são meus
primos, que são bons garotos, boas pessoas... Esse é um
personagem cuja diferença é justamente ser um jovem comum,
de uma geração muito próxima da minha, que tem pensamento e
atitude.
O Evilásio mudou de alguma forma a visão que você tinha das
favelas?
Fiquei muito feliz por poder contar uma história que se
passa numa favela e que a violência não é o enfoque
principal. É muito importante falar de uma comunidade, de
uma favela, que tem, sim, violência, que tem, sim,
carências, mas através de um enfoque mais humano, através
das relações.
Você já teve algum retorno do público com relação ao
Evilásio?
Uma coisa muito bacana que está acontecendo é que tem gente
que acha o personagem bonzinho. E, logo depois da cena com a
personagem da Marília Gabriela, uma senhora chegou para mim
e disse: “Nossa, você está um tesão!”. Achei sensacional!
Como você acha que o público vai receber o Evilásio?
Espero que as pessoas se identifiquem com ele. Acho que isso
é o mais importante. Que se identifiquem com as qualidades
que ele tem. Apesar de vivermos em tempos nos quais nem
sempre a ética e a moral estão em primeiro plano no
comportamento das pessoas, espero que elas sejam estimuladas
a serem mais éticas, mais gente boa. Acho que não é nem
ética, acho que é ser gente boa. Acho que o tema do Evilásio
é ser gente boa e torcer para a humanidade dele nos acertos
e nos erros.
Você acredita que na vida real é possível um amor entre
universos tão diferentes como do Evilásio e da Júlia?
Não só acho que é possível
como acho que deve ser possível sempre. Aliás, acho que a
diferença só ajuda no relacionamento, porque a pessoa vai
ter que aprender e evoluir à força. Não é fácil, mas este é
um amor mais real, inclusive do que um amor utópico daqueles
em que dá tudo certo, que tudo são flores e fim da história.
Acho que esse é o amor real, que é o amor da administração.
Na verdade, as histórias de amor da vida real são
administrações diárias. E acho que uma história como essa é
possível e tem que dar certo.
O Evilásio não só é vítima de preconceito, como também é
preconceituoso. Você acha que na vida real existe uma
solução para preconceitos tanto como os que ele tem, quanto
para os que ele sofre?
Acho que a solução pra isso é difícil, porque todas as
questões de preconceito que a gente tem na sociedade são
culturais. É muito difícil você modificar uma cultura toda
em pouco tempo. Mas acho que o primeiro passo é poder falar
daquilo que lhe incomoda e também estar disposto a ouvir
aquilo que o outro está percebendo. Acho que o diálogo é o
caminho inicial. E saber que temos leis pra nos proteger e
que somos responsáveis pela mudança da cultura. Não é uma
pessoa só que faz a cultura, somos todos nós e temos que
estar atentos a esse assunto porque ele faz parte da
evolução do país
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