Decreto municipal prejudica
carros de som

Há sessenta dias, encontra-se em
vigor, em Jacobina, um polêmico decreto municipal que
regulamenta os veículos prestadores de serviços de
publicidade, conhecidos popularmente como “carros de som”,
que, entre outros procedimentos, proíbe a circulação desses
veículos no centro comercial mais importante da cidade, ou
seja, no trajeto que abrange as avenidas Manoel Novais e
Orlando Oliveira Pires, as praças Rui Barbosa, Castro Alves,
Rio Branco, Dois de Julho e Getúlio Vargas e as ruas Senador
Pedro Lago, Antônio Muniz, Antônio Teixeira Sobrinho,
Melchior Dias, Direita 2 de Julho, Afonso Costa, Coronel
Teixeira, José Cardoso Costa, Caixeiro Viajante e Travessa
da Justiça. Esta proibição foi acordada numa reunião
ocorrida em 26 de abril deste ano, no escritório do
Ministério Público local, da qual participaram o promotor
Geraldo Agrelli Lobo; o prefeito Rui Macedo; representantes
da 24a CIPM; coordenadora da 20a Ciretran, Nídia Oliveira
Mesquita; diretor do SMTT, Jorge Soares Teixeira;
coordenador municipal de Receita e Fiscalização, Humberto
Silva Reis, e o assessor jurídico do município, Leonardo
Virgílio Oliveira Monteiro.
Com o decreto, ficou estabelecido também, que os carros de
som somente poderão circular com alvará de sonorização e nos
horários permitidos (das 8h às 20h), sob pena de receberem
sanções que variam da advertência e apreensão do veículo,
passando pela cassação do alvará ao pagamento de taxas. Com
base em leis que já existiam, como os códigos do meio
ambiente e de polícia administrativa, este decreto mantém os
limites máximos de som em decibéis, permitidos pela
Resolução 204 do Contran, além da obrigatoriedade de
silêncio, nas imediações de escolas, hospitais e órgãos
públicos.
Tendo em vista a importância desta atividade para a cidade,
cuja existência remonta e se confunde com a própria história
de Jacobina, até que ponto todo esse aparato legal e fiscal
contribuiu para qualificar o setor? Segundo João Cunha
Araújo, que há mais de 40 anos trabalha com carro de som, o
decreto é um dos resultados da série de reuniões e
discussões ocorridas, sobretudo, no ano passado, entre a
prefeitura e os proprietários de veículos de publicidade,
quando existiam em torno de 25 deles em circulação, e se
questionava os critérios de exploração da atividade no
município. “Chegamos a um consenso com a prefeitura”, contou
Araújo, referindo-se a uma quantidade ideal de carros de som
necessária à cidade, que ficou definida em até oito, de
acordo com o número de habitantes.
Esta e as demais medidas influenciaram positivamente para a
valorização do serviço prestado correta e legalmente, e para
combater, por outro lado, a concorrência desleal. No
entanto, ao proibir a sonorização no centro da cidade, o
decreto causou perdas, de acordo com Araújo. “Foi
prejudicial para o nosso serviço, porque muitos clientes
queriam que a gente passasse pelo centro”. Humberto Silva
Reis, coordenador de Receita e Fiscalização da prefeitura
explicou que o decreto foi uma resposta às constantes
reclamações de comerciantes e transeuntes, já que a redução
do número de carros teve como conseqüência a diminuição da
poluição sonora no centro da cidade. Indagado sobre os
pré-requisitos na obtenção de licença para a prestação do
serviço, Reis antecipou que “a prefeitura não está mais
fornecendo alvará para novos veículos de publicidade”.
A Associação dos Publicitários Volantes de Jacobina (APVJ),
fundada em 2005, conta com oito associados, entre os quais,
a MS Publicidade, de Manoel Souza, atual presidente, que
também se pronunciou sobre os temas em questão. Souza já
trabalha com carro de som há mais de 20 anos e disse que
“hoje não vemos tantos carros de som pelas ruas da cidade, o
que vinha prejudicando o setor, pois todos os comerciantes
queriam colocar um carro de som para o seu serviço
particular, e já estavam até fazendo publicidade de outros
eventos, prejudicando muito o nosso trabalho”. Para ele, o
fato de não circular pelo centro da cidade, pouco prejudica,
“a não ser alguns comerciantes que gostam de ouvir o seu
comercial na porta da sua loja” e que a maioria “prefere que
o seu comercial seja rodado nos bairros mais distantes”.
Questionado se ainda existem carros circulando,
clandestinamente, na cidade, advertiu que “ainda tem um ou
dois que teimam em rodar”.
A APVJ tem o objetivo de organizar, disciplinar e ajudar na
fiscalização do funcionamento dos carros de som prestadores
de serviços de publicidade, sendo associados J. Propago
(João Cunha Araújo), Panta Publicidade (Joilson Panta),
Bruno Publicidade (Bruno Márcio), Dina’s Publicidade (Edinael
Rodrigues), Garcia Publicidade (Roberto Garcia Pas-sos),
Adrenalina Produções (Mar-co Dantas), Moto Som (Angevaldo
Rosa) e MS Publicidade (M. Souza).
Impasse - O empresário Ariovando Leal de Oliveira declarou
estar enfrentado grandes dificuldades para prestar o serviço
de publicidade com carro de som em Jacobina, apesar de
garantir que vem fazendo todos os esforços no sentido de
cumprir a legislação em vigor. Ele executava esta e outras
atividades através de uma única firma e, até o ano passado,
obtinha da prefeitura o alvará extensivo ao serviço de
sonorização, o que não ocorreu em 2007. De acordo com o
coordenador de Receita e Fiscalização, no caso de empresas
exercerem mais de uma atividade, “para cada atividade tem
que haver um alvará específico”. Oliveira disse que em maio
deste ano pagou a cota única para receber a autorização,
como fazia anteriormente, mas alegou que, até a presente
data, o documento ainda não lhe foi entregue. Ele disse que
desde então, todas as vezes que saiu com o veículo enfrentou
situações constrangedoras que o levaram a deixar de prestar
o serviço de sonorização. “Quando saía com meu carro de som,
era abordado pelos guardas da PAM que me cobravam o alvará”,
contou Leal.
Ariovando Oliveira disse ainda que foi obrigado a impetrar
um mandato de segurança contra a prefeitura diante da recusa
desta em aceitar as provas documentais apresentadas por ele
nas abordagens. “Passei por toda essa humilhação, não sei se
por culpa da incompetência do Setor de Tributos da
prefeitura, ou se estou sofrendo algum tipo de perseguição.
Mesmo com todo o prejuízo que estou tendo, acredito na
justiça e espero uma solução para o meu problema”,
desabafou. Já o comerciante João Batista Lima disse que tais
veículos, muitas vezes, atrapalham o comércio e o trânsito,
devido ao som emitido e à baixa velocidade. “Às vezes temos
que interromper uma conversa, por telefone ou pessoalmente,
com nossos clientes, porque está passando um carro de som na
rua”, reclamou. Nos pontos de maior concentração de veículos
ou mesmo nas estradas de maior rotatividade, os carros de
som causam impaciência para quem está no trânsito, segundo o
comerciante. “Eles param nas pontes e dificultam a passagem
dos demais carros”, exemplificou.
A reportagem do Primeira Página tentou ouvir a opinião de
Roberto Jacobina, presidente da Associação Comercial e
Industrial de Jacobina, sobre o assunto, mas até o
fechamento desta edição não obteve retorno.
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