O primeiro jornal do interior da Bahia na Internet

 

 

 

 

 

O papel da família na gestão educacional

O jacobinense Valmir Lacerda Cardoso Júnior, bacharel em Direito, pós-graduado em Direito Público, perito criminalístico, professor de Criminologia da Uneb, consultor em Desenvolvimento Humano do Sebrae Nacional e consultor jurídico e em Gestão da LGV Consultoria Ltda, em entrevista ao jornal Primeira Página, fala sobre Gestão Educacional.

Primeira Página: Como um bacharel em Direito atua na área de desenvolvimento humano e em gestão educacional?
Valmir Lacerda Júnior: Interessante este questionamento. Antes de tudo vamos diferenciar a graduação da profissão. Ninguém forma-se em advocacia. Sou bacharel em Direito e com essa graduação a pessoa decide se será membro do Ministério Público, ou um juiz de Direito, um delegado de Polícia, defensor público, enfim, um leque de profissões que são exclusivas dessa graduação, além da advocacia que, para tanto, a OAB exige uma certificação, o chamado “Exame da Ordem”, para exercer regularmente esta profissão. Mas outras profissões o bacharel em Direito também pode exercer, como essa minha que resumo todas como educador, igualmente, com suas devidas proporções, é claro, ao maior educador do Brasil que foi Paulo Freire, um bacharel em Direito. No meu caso, após formatura e pós-graduação, advoguei e implementei um projeto financiado pelo Banco Mundial na Secretaria Estadual da Educação com foco em Gestão Educacional, amparada em leis específicas à educação, que assessorava e capacitava gestores educacionais (secretários de educação, diretores de escolas públicas estaduais e municipais) para esse novo modelo de gestão baseada em teorias contem-porâneas de administração e leis vigentes, como é o caso da LDB e Fundef agora Fundeb, isso de 2001 a 2006. Daí minha paixão pela educação.
Primeira Página: Como você vê hoje o nosso cenário educacional?
Valmir Lacerda Júnior: Devemos fazer uma análise sistê-mica e ampla. A nossa educação, estou falando em nível de Brasil, está passando por um período de transição após a nova LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei nº. 9394/96) que entrou em vigor em 1997. Vários países no mundo passaram por esta transição como o Chile, Israel e países da Europa. Acontece que essa transição está lenta, prin-cipalmente porque transferiram para os estados e municípios a responsabilidade do ensino básico, que inclue o fundamental e médio, antigos 1º e 2º grau. Assim, entendo que, enquanto não houver uma intervenção mais significativa em nível federal, a responsabilidade por essa transição é nossa, e quando digo nossa, estou falando em comunidade escolar, e a família faz parte dessa comunidade e deve participar sim desse novo modelo de gestão.
Primeira Página: Como é esse novo modelo de gestão?
Valmir Lacerda Júnior: Esse novo modelo, de acordo com a LDB, deve ser baseado na autonomia das unidades que deverá ser conquistada, pois entendo que autonomia não se decreta, se conquista e também deve seguir a forma democrática e participativa com todos os setores da comunidade escolar. E para isso não tem segredo. Temos que trabalhar com o que temos de mais valioso em todo esse processo: o ser humano. Pois, esses diversos setores são compostos de pessoas: são os gestores, a família, os docentes e discentes e servidores (administrativo e de apoio). E a lei de Responsabilidade Fiscal e o orçamento público não permitem que façamos uma mudança radical no quadro de servidores e também não é possível adquirir família participativa. O que nos permite é capacitar e treinar essa turma para que esse novo paradigma, esse novo modelo seja realidade em nosso sistema educacional.
Primeira Página: E em relação à família, qual o seu papel, o que deve ser mudado?
Valmir Lacerda Júnior: Pois bem, primeiro deve entender que a nossa lei maior, que é a Constituição Federal de 1988, reza que a educação é dever da família da sociedade e do Estado nos seus três níveis (federal, estadual e municipal), isso está escrito no artigo 227. Com isso, deve-se atentar também que é um direito de todos, por isso essa universalização da educação. Daí a preocupação da quantidade com a qualidade. E a coisa mais fácil é jogar a culpa nos outros e não assumirmos a responsabilidade. Os pais jogam para a administração pública, essa repassa para os professores, esses transferem para os alunos que culpam a direção e leva de volta para a família e fica esse jogo de empurra, quando, na verdade a responsabilidade é de todos, e cada um fazendo sua parte, com certeza cada unidade apresentará essa qualidade tão esperada por todos. E o papel da família não é, seguramente, achar que o aluno matriculado em uma escola será devolvido pronto para a vida em cidadania. A família, os pais principalmente, tem que participar, saber como anda o trabalho dos professores (planeja-mento e aula, não é só aula não); se a administração pública está fazendo corretamente a aplicação dos recursos (que não são poucos); estando mais presente nas atividades extra-curriculares e complementares à educação e não ficar, isso quando ocorre, preo-cupada com o comportamento em sala de aula. Isso é muito pouco. Tem que ser mais ativa a família.
Primeira Página: Esse processo é lento?
Valmir Lacerda Júnior: Temos a consciência que não é um processo fácil e rápido, mas também não pode ser muito lento, tudo tem a sua hora e a hora de fazermos a diferença é agora. Cada um deve procurar a sua função e realizar da melhor maneira possível e, assim, de forma gradual e processual, passaremos por essa revolução educacional, que ainda está muito discreta, que tem o tempo como fator de mudança, pois, se não regredirmos, cada geração será melhorada.