Jacobina

Quando a pobreza não é desculpa

 

(Por João Ferreira Nery) - Quando olhamos o quadro de pobreza e miséria em que vive grande parcela da população brasileira somos levados muitas vezes a agir com certa tolerância a alguns desvios de conduta por parte de pessoas, que achamos que se tivessem uma condição de vida melhor certamente não teriam cometido delitos ou enveredado no caminho do crime.

Concordo que as condições sociais podem levar as pessoas tomarem rumos diferentes daquilo que desejavam e em alguns casos até levar algumas à criminalidade, mas jamais poderia concordar que esse fator somente pudesse levar alguém ao mundo crime, pois do contrário eu não estaria aqui escrevendo este depoimento que poderá servir ao meu ver, de exemplo para muitos jovens pobres, como eu.

Tenho afirmado com convicção que duvido que haja alguém neste município e neste estado que viva em condições de miséria igual ou pior do que a que vivi na minha infância. Há momentos em que vejo algumas pessoas criticarem os problemas sociais dos governos e fico perplexo diante do desconhecimento da realidade da fome por parte de uma parcela da sociedade que não é rica, mas também nunca teve falta de alimento e agasalho.

Deitar com o estômago vazio sobre uma banda de couro de boi sem uma coberta para aquecer e torcer para o dia clarear a fim de se aquentar à beira de um fogo feito com essa finalidade é uma lembrança que o tempo não apaga, mesmo que hoje tenha tantas cobertas que não preciso usar. Isso não se repetiu uma vez ou duas apenas, mas fazia parte de uma existência que só foi rompida com a decisão de tudo abandonar e ir tentar uma sorte melhor na cidade.

Durante anos a refeição básica de nossa família era abóbora com sal e fava quando tínhamos um pedaço de sebo bovino com farinha, era para nós um banquete. Somente aos 14 anos pude comer uma maçã e dormir numa cama aos 15. Os únicos brinquedos com que brinquei na minha infância eram criados por mim e meus irmãos e os que mais estimávamos eram os bodoques, que consistiam também em nossos instrumentos de sobrevivência.

Não fossem as rolinhas abatidas, com as pelotas de barro, que serviam de paliativo às necessidades nutricionais, alguns de meus 15 irmãos que sobreviveram teriam tido o mesmo destino de outros três que morreram por conta da desnutrição. Trago em minhas mãos e pés as marcas do fogo que incendiou o rancho de sapé quando tentava assar um pedaço de sebo que seria única refeição daquele dia. E guardo a pior das recordações quando via uma família que tinha posses se alimentando e diante do meu insistente olhar alguém dizer: “dê um pouco de comida pra esse menino senão ele cai o olho” essa pra mim foi a maior humilhação de todas que tenho lembranças.

Ainda essa semana, tive que mostrar a uma de minhas filhas as marcas causadas pelos pedregulhos na sola dos pés, pelo fato de andar descalço não por opção, quando ela insistia em recusar uma sandália de marca só por que não tinha um detalhe que ela viu em outra que custava 12 reais a mais. Somente quem andou descalço ou quando muito usou alpercatas de pneus e roupas remendadas até diminuir o tamanho, sabem dar valor e reconhecem o quanto é importante poder usar um artigo bom independente de marcas.

Quando digo que fui alfabetizado aos 24 anos de idade muita gente não acredita, como não acredita que fui menino de rua; que convivi com a dureza dos bancos de praça e que num momento em que as circunstâncias me levava ao caminho da mendicância e da vagabundagem, alguém me estendeu a mão eu não precisei sair pedindo e me tornar um andarilho como já estava determinado. Vi meus colegas de infância um a um se acabarem nas drogas, na prostituição e na criminalidade; a Aids ceifou a vida de vários deles, outros se acabaram nas mãos da polícia, por escolher caminhos tortuosos e foi nesse ambiente eu decidi que queria outra vida.

Não acredito em milagres, nem no destino, mas tenho a firme determinação de que não podemos culpar o governo, nossos pais ou qualquer outra pessoa pelas nossas desventuras, elas dependem mais das escolhas que fazemos e da determinação e energia que devotamos a elas. Há uma declaração na Bíblia que diz: “nunca deixará de haver pobres na terra” e embora não seja religioso eu concordo plenamente com ela, vencer a pobreza, mais do que um dever do Estado, deve ser uma determinação do cidadão.

Ao colar grau em História pela Uneb nesta sexta-feira, após haver cursado Teologia na Unasp e ter passado em dois outros vestibulares, sinto-me um vencedor. Por mais que as lembranças de um passado cruel não se apaguem, a alegria de olhar as pessoas de frente e poder dar às minhas filhas uma condição de vida melhor do que tive, traz uma satisfação que me torna plenamente realizado. Tenho a consciência que o diploma que ora recebo deve me tornar uma pessoa cada vez melhor senão perde todo o sentido da luta e espero sinceramente poder contribuir de alguma forma para tornar o mundo melhor.




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